A Decadência do Gosto Musical

O texto a seguir foi elaborado para um trabalho que apresentei no fim de 2011 para a matéria de Estética Musical na faculdade. Achei interessante compartilhar, espero que gostem.
 
“Toda inovação musical é prenhe de perigos para a cidade inteira”
– A República de Platão, Livro III.
Os gregos consideravam o Ethos como uma doutrina na música, que, portanto, expressa ordenação, diferenciação e o equilíbrio dos componentes rítmicos, melódicos e poéticos. De acordo com as concepções gregas, o Ethos tem poder de induzir o homem à ação; manifestar a força, o ânimo; provocar fraqueza no equilíbrio moral; e induzi-lo, temporariamente, a um estado de inconsciência.
Platão sabia o poder que a música exerce sobre as emoções e equilíbrio do homem, para ele a música compreendia o equilíbrio da alma. As ideias do filósofo Adorno não deixam de concordar com ele ao afirmar em seu texto “O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição” que “a música constitui, ao mesmo tempo, a manifestação imediata do instinto humano e a instância própria para o seu apaziguamento”.
Após a introdução destes dois pensamentos, gostaria de iniciar meus argumentos sobre a progressiva decadência do gosto musical e os perigos a cerca da mesma.
Não é de hoje que percebemos e até fazemos críticas ao gosto musical das pessoas de alguma região, uma pessoa próxima ou até mesmo de outro período da história. Adorno, já no período de sua existência, percebia e apontava o problema de regressão da audição. E analisando o mesmo texto deste autor citado anteriormente, podemos ver que o problema continua sendo o mesmo, com os mesmos motivos, mas tomando proporções cada vez maiores.
Nos dias em que vivemos o acesso à internet e outros tipos de fonte de informação tem se tornado facilitado para a maioria da população. A pergunta que fica é: Se hoje temos tanta oportunidade de ir atrás do melhor conteúdo, por que a maioria de nós se contenta com uma música de qualidade tão inferior?
Eu culparia vários fatores. Um deles, e na minha concepção o maior, é o conformismo. Nós recebemos um tipo de informação através de anúncios publicitários e programas de televisão e rádios, todos reproduzindo o mesmo tipo de conteúdo. Pessoas cantarolando a mesma melodia na rua, ouvindo a mesma música no seu carro e até (infelizmente) em seus aparelhos celulares dentro do ônibus enquanto nos dirigimos aos nossos empregos e faculdades, onde algum colega com certeza vai chegar perguntando se você já ouviu aquela música que toca em tal comercial, ou aquela música que é tema da mocinha da nova novela, ou aquela outra engraçada que uma dupla fez o favor de gravar um vídeo tocando em sua própria versão da pior maneira possível e postar em sites como Youtube.
Enfim, seja em uma rodinha de amigos, numa sala de aula ou de reuniões ou simplesmente ao fazer login em alguma rede social, somos o tempo todo bombardeados de melodias, jingles e hits que vieram não sei de onde e feitos por não sei quem de quem agora somos fãs eternamente. Quer dizer, até a moda ser outra, claro. Porque todos precisam acompanhar a moda musical, ninguém quer fazer papel de alienado ou ser rejeitado porque não gosta do que a maioria acha fantástico. É óbvio que é melhor se conformar com o que a mídia passa e repassa e o público aplaude, seja o conteúdo bom ou não, do que formar sua própria identidade musical. Sem falar também que é menos trabalhoso, afinal essa coisa de ter que ir atrás de informação dá muito trabalho e exige muito tempo. Preferimos ficar com aquilo que já conhecemos e que nossos amigos também conhecem, afinal é isso que faz sucesso na novela do canal de TV “vocês sabem qual” que é o favorito da nossa nação, então deve ser bom mesmo.
A população aprendeu a viver numa espécie de educação tradicional, ou seja, apenas receber a informação, guardar e reproduzir. Na maioria das vezes não pensamos no que estamos recebendo, se aquilo nos edifica de alguma forma. A informação é armazenada e aprendemos a reproduzi-la até obtermos alguma outra que a mídia julgue boa o suficiente para alimentar a alienação de seus consumidores. E aí o ciclo se reinicia e o comércio de música descartável continua a crescer.
Aliás, deve ser por isso que às vezes tenho a sensação de que em alguns gêneros musicais, se não em todos eles, estamos definhando. Os compositores pensam muito mais no sucesso do que na prática de criação em si. Dessa forma, é muito melhor escrever uma música semelhante a que já está fazendo sucesso, porque se o compositor for ousado o suficiente pra criar algo novo, as chances de rejeição desse público conformado em consumir certo tipo de música são enormes. Então, se já está bom péssimo desse jeito pra quê melhorar? A necessidade do público de receber algo novo é cada vez menor.
Além disso, outro problema que é consequência desse conformismo, é que o indivíduo não sabe mais ouvir música, não sabe fruir na audição da música e extrair dela o que tem de melhor a nos proporcionar. Pior, ele nunca aprendeu a fazer isso. Se perguntarmos na rua, as pessoas dirão que ouvem música sempre, todos os dias. Mas não estou falando da audição que você faz enquanto está no ônibus sonolento a caminho do trabalho pensando no quanto o seu dia vai ser longo. Ou na música que você coloca enquanto limpa o seu carro. Essa música é uma boa companheira, claro. Mas isso não é ouvir e muito menos apreciar música.
As pessoas não estão acostumadas a parar e prestar atenção naquilo que estão ouvindo. Na sensação que o conjunto melodia, ritmo e harmonia causam por dentro, e se essa sensação traz mesmo algum benefício. No que aquela letra acrescenta ao seu conhecimento intelectual ou se aquelas duas sílabas que o cantor de sucesso atual fala que tanto quer realmente concorda com os valores que você pretende conservar e praticar na sua vida.
Mas o pior de tudo é que o problema não para na alienação que causamos a nós mesmos e à nossa geração, ele segue adiante. Todos sabem que as crianças reproduzem aquilo que vêm e ouvem os adultos fazendo e falando. Ou seja, se uma mãe coloca dentro da sua casa músicas que trazem contextos sexuais e de perversão, ela não deveria se espantar tanto assim quando sua filha de 14 anos aparece grávida em casa, afinal foi esse tipo de atitude que ela demonstrou incentivar cantando incessantemente músicas que apelam pra sexualidade enquanto cozinhava.
Dessa forma, fica cada vez mais evidente a progressiva inversão de valores que a cultura de massa cultiva na mente e nos corações dos cidadãos. Enquanto as gerações anteriores cantavam sua luta contra a ditadura as gerações futuras aprendem a cantar sua luta a favor da legalização das drogas. Enquanto as gerações anteriores cantavam que os filhos deveriam procurar entender os seus pais e vice-versa, as gerações futuras aprendem a cantar que mulher é apenas um objeto sexual. E tudo sendo aplaudido de pé, pois estamos vivendo um período de liberdade de expressão, claro. Isso sim é uma ideologia liberal. Então, se é assim estamos de parabéns.
Mas como citado no início, já dizia Platão “Toda inovação musical é prenhe de perigos para a cidade inteira”. Penso que após todo esse contraste que busquei fazer, fica claro que as inovações musicais que a cultura de massa tem, perdoem-me a expressão, nos “enfiado goela abaixo”, são nitidamente um perigo de consequências muito ruins para as gerações futuras. Se não buscarmos ensinar nossos amigos, familiares e principalmente alunos que eles precisam aprender a pensar na música que ouvem ao invés de só fazerem uma digestão rápida de tudo, esperando ansiosamente pela próxima refeição de elementos nada saudáveis para sua identidade musical, essa alienação vai continuar se intensificando.
Porém, se Adorno já discutia esse tipo de questão demonstrando sua preocupação e o processo continuou em andamento, significa que a população desde aquele tempo não atentava para os perigos que a regressão da audição pode causar. Talvez quem se atente a isso sejam as pessoas que assim como Platão, percebem que a música tem um grande poder sobre o equilíbrio da alma e de indução no homem. A música pode alienar ou pode abrir os horizontes do pensamento, fica a cargo do indivíduo se deixar levar pela alienação da cultura de massa ou procurar o novo, explorar e extrair o que a música de qualidade tem de melhor a nos oferecer.
Quem sabe algum dia a sociedade volte a valorizar em sua maioria músicas que valorizem ideologias que preguem valores como o respeito, a honestidade, o bom senso, a bondade e o amor ao próximo. Quem sabe um dia os compositores percebam que suas músicas só se eternizarão se realmente trouxeram alguma mudança positiva para o indivíduo que a consome, se trouxerem algum tipo de revolução para o bem da sociedade.
Talvez um dia aprendamos a pensar na música, a criticar a música e a mudá-la para mudar o tipo de influência à que nossa geração atual e futura tem sido e será submetida. E Deus nos livre do conformismo.
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